O inverno faz com que caiam das nuvens os nossos piores sentimentos; a depressão, o tédio, o cansaço, empurram cada um de nós para um leito de indiferença, numa lentidão de sombra. Porém, o nome das estações nem sempre corresponde à substância concreta dos dias. Uma imagem, um riso, uma frase que tropeça na emoção do que se quer dizer, se isso é o amor, transformam o instante; e uma vida que parecia efémera ganha a perspectiva da eternidade, como se a aranha tivesse adormecido na sua teia, libertando-nos da impaciência do tempo. Sempre peço um café; e enquanto admiro o gesto suave da empregada, como se colhesse da máquina a sua flor negra, vejo estes corpos como barcos fundeados: uns, esperando a hora da maré para levantar a âncora; os outros, sofrendo já a invisível decomposição dos estuários, convidaram-me a entrar na sua armada de vencidos. Mas a porta abre-se. Um vento súbito percorre a sala; e respiro esse ar frio que me empurra para fora, onde sei que me esperas.
(Nuno Júdice)






3 comentários:
E ainda bem que mudam...
beijos
É remar, remar, mesmo quando contra a maré.
Bom FdS!
Big,
E hoje em dia mudam num ápice!! :) Estamos mesmo a virar país tropical!! LOL
a,
Há que ir e voltar!! :P
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